Por Silas Nogueira*  e Marília Rosa Barbosa*

O primeiro impulso, ou a primeira leitura, ao ouvir João Roquer e seu canto, podem levar a uma apressada associação direta com os antigos menestréis, mesmo que não sejam identificadas claramente as razões dessa semelhança. Na realidade mais palpável – por mais complicado que seja identificar realidades em qualquer lugar e tempo, menos ainda no universo da música e da poesia –, essa semelhança procede, mas muito mais em relação aos herdeiros daqueles poetas andantes. Roquer se aproxima mesmo é dos cantadores nordestinos e do universo real, tanto quanto mágico, do qual esses pássaros viajantes são a parte alada do movimento e de uma sonoridade que, como o sol e a dureza das fomes e da terra, espalham-se pelo sertão e pelas nem tão desertas cidades do nordeste brasileiro.

Seu canto não é, nem poderia ser, uma reprodução, menos ainda imitação, daquilo que é criado, externado e vivenciado desde tempos imemoriais entre vaqueiros, cangaceiros, cabras destemidos, lavradores que cultivam pedras e peçonhas andantes na caatinga – gente endurecida e explorada no seio do grande latifúndio, na terra hostil e seca. O que se vê, com faro, audição e olhar mais atento ou tranquilo, é, sim, de algum modo, essa terra hostil, seus frutos, humanos ou não, maltratados na história onde misérias e opulência convivem em um conflito constante e sórdido; isso, porém, na obra de Roquer, não é dado aos sentidos de forma direta, à maneira de fotografia ou cópia fiel de uma realidade concreta e aparente. Essa história e esse conflito aparecem no campo da memória, das buscas ou de revelações de lembranças de circunstâncias, lugares, cantigas, histórias (re)inventadas e (re)veladas por contadores nas noites quentes. Faz ainda, o canto de Roquer, subir, ou descer, aos olhos e ouvidos, vivências da infância ao pé da árvore, nas estradas imaginárias ou não, na casa comum do vivente comum, no casarão onde gente de todas as idades, com suas histórias, compartilham séculos, anos, dias, cotidianos. Mas esse caminhar do poeta não despreza nem se alheia ao tempo histórico, a uma história na qual cadáveres, ilustres ou não, coronéis, milícias e jagunços alimentam um conflito cruel – aquele que começa no sertão e termina na favela, enquanto, ao mesmo tempo, famílias portentosas constroem castelos e impérios com seus herdeiros e fantasmas poderosos que assombram, em sua faina rasteira pelo poder, brasis, planícies e planaltos.

O jogo, entretanto, nem sempre limpo e honesto da história não está na obra de Roquer de forma a sujá-la de sangue, fome, ódio e  ganância; não é peso morto na criação nem está explícito como lâmina ou panfleto, nem como suposta consciência ou ciência medida. Isso a empobreceria. Se ele carrega a lua nordestina no bojo do violão, carrega junto uma sofisticada construção melódica e literária que arremessa o autor e o ouvinte leitor às plagas de um mundo onde canto e consciência conversam com a solidão humana na linguagem que críticos tradicionais chamariam de universal ou, por erro maior ainda, ou descuido, dariam rótulo de regional. Sua poesia tem, sim, poeira da terra seca e aves noturnas encantadas agourando as vozes líquidas da modernidade sombria. Seu trabalho, contudo, prima por uma erudição, por uma maneira sofisticada de forjar versos, ao mesmo tempo com domínio e fluidez sobre a palavra escrita/cantada. Esse manejo requintado da palavra cria e empresta a elas vida e significados abertos na melodia, no voo que resulta em canção. Se da terra e infância vêm lembranças e pedaços lúdicos ou sofridos da história, do universo da criação literária, poética, ensaística, vem a sofisticação de quem trata com carinho e conhecimento a palavra. Do mundo virtual criado por um Guimarães Rosa, por um Cervantes, por Octavio Paz, Drummond e Machado, Roquer bebe sem se embebedar. De sua vivência acadêmica e literária, no outro sertão, o sertão da solidão urbana, tão áspero quanto – ou até mais – que a caatinga, Roquer filtra gritos e frases melódicas no vazio das inteligências pedantes e das ruas cheias de arrogâncias, automóveis e delírios.

Nesse exercício lúdico, literário, musical empreendido pelo autor e criador, tocam, aos ouvidos atentos, a expressão do cantar de Roquer como um fim em si mesmo, ainda que não o seja. Parece ser essa expressão que João quer fazer crescer ao nos pedir licença para seguir germinando música na faixa Cancioneira, que dá o título a sua última obra, recém-lançada – um EP com quatro canções inéditas. Entre os elementos dessa expressão sobressai-se a liberdade do cantar, recurso com que João interpreta a canção “Oito vezes canção”, inflexionando a voz, no refrão, ao ento(n)ar o sertão que leva no braço, inteiro, como o voo do Acauã – não como o canto dessa ave, pois de Roquer não sai agouro nem tristeza gratuita. Nasce é alguma esperança, mesmo diante da predominância dos atuais processos líquidos e voláteis, no qual perfis substituem pessoas, onde a mercadoria é divindade e o amor é tão fugaz quanto um cometa desvairado e pobre. Nesse contexto contemporâneo, um tanto sórdido, ouvir, pensar, agir parecem ser categorias em extinção. Em Roquer, os signos de esperança em uma (re)humanização do humano parecem ser expressos também nas formas físicas e materiais do trabalho que entregou ao mundo. O recurso do vinil é o mais explícito drible na digitalização/virtualização da vida e do pensamento. Um recurso que condiz com o verso “um sertão escrito todo a mão” (de “Oito vezes Sertão”), maneira de dizer que o abandono do cultivo da letra cursiva pode também significar outros abandonos, como aquele de construir carinhos associados a pensamentos, traços, lavra de terra e gente. Mas não só aí Roquer enfrenta – mesmo sem puxar todas as armas de que dispõem seu braço e seu pensamento – o vazio dos tempos liquefeitos em fugazes e frágeis relações humanas. A pegada ou enfrentamento sereno e firme (político, portanto) se dá também nos campos sensíveis, com os recursos da habilidade com que intensifica a saudade e a solidão “na terra estrangeira de língua cumprida do homem educado”, no bom e velho voz-e-violão da faixa “Migração”, sanfonada e dolorida. Dor esta bem diferente daquela com que diz a Mané que já vai na “Já vou, mané”; nesta, ao cantar, parece dialogar mesmo é com o trombone dançante embalando o som em uma relação com o espaço onde mora o malandro que permeia o imaginário do povo que busca driblar a força bruta, o extermínio, as chacinas, o racismo e a crueldade das infâncias perdidas por bala ou fome. Há muita vida nesse cantar de Roquer que parece saber que “se alguém tem que morrer, que seja para melhorar”. Eis aí sua contribuição para que a dança não seja só no fio da navalha e nem o saber seja mera mercadoria; que seja a dança a irmã da gratuidade da melodia e o saber compartilhado como campo e canto de terra e estrelas.

Silas Nogueira é professor do Centro de Estudos Latino-americanos sobre Cultura e Comunicação (CELACC/Eca/Usp) e membro do centro Cultural Orùnmilá de Ribeirão Preto.
Marília Rosa é jornalista e atua com processos culturais na empresa Sonhe.