No conto Aleph, de Jorge Luis Borges, uma notícia inesperada despertou no narrador (Borges) uma incontida curiosidade. Isso ocorreu quando Borges, informado por Carlos Argentino Daneri a respeito da existência de um Aleph (“um lugar onde estão, sem se confundirem, todos os lugares do planeta, visto de todos os ângulos”), decidiu vê-lo imediatamente. Pôs-se então a olhar o décimo nono degrau da escada do antigo porão da casa de seu conhecido Carlos Daneri, e comicamente estendido no chão, se deparou com uma abertura no espaço que media uns três centímetros de diâmetro: o Aleph.

Borges viu tudo por essa fenda. “As multidões da América, uma teia de aranha prateada no centro de uma pirâmide, a noite e o dia contemporâneos, os sobreviventes de uma batalha enviando cartões postais”. Depois dessa breve olhada, Borges foi tomado por uma apatia e ao mesmo tempo por um desespero, ao supor que não esqueceria as coisas que vira.

Aliás, o desespero do não esquecimento, a super memória, é tema de outro conto de Jorge Luis Borges. Em Funes, o memorioso, Irineu Funes, depois de ficar paralítico em razão de uma queda, começa a ver o mundo de outra forma. Ele aprendeu a falar latim, sabia com detalhes minuciosos as mais antigas passagens históricas, tornou-se proficiente em outras línguas, lembrava os odores, as cores e as texturas. Contudo, no mundo detalhado de Funes não havia a generalidade e a abstração. “Ao cair, perdeu o conhecimento”.

Impressiona a descrição de sua habilidade:

“Funes percebia todos os brotos e cachos e frutos que uma parreira possa conter. Sabia as formas das nuvens austrais do amanhecer do dia 30 de abril de 1882 e podia compará-las na lembrança com os veios de um livro em papel espanhol que ele havia olhado uma vez e com as linhas de espuma que um remo levantou no rio Negro na véspera da Batalha de Quebracho.” (p.105)

Em outro trecho Funes resume a capacidade de sua memória: “Eu sozinho tenho mais lembranças que terão tido todos os homens desde que o mundo é mundo”.

[https://www.artstation.com/artist/jamesmclean ]

Esses dois contos trazem algumas ideias para pensarmos os apuros contemporâneos, especificamente a nossa relação com a internet. Ao acessar a timeline do Facebook ou Snapchat, por exemplo, estamos, assim como Borges, de certo modo olhando para uma fissura móvel no espaço, cujo conteúdo tende a ser tão vasto quanto o da “vida real”. Ao movimentamos o polegar para cima e para baixo nos deparamos com conteúdos políticos, artísticos, banalidades do ego, morais, violentos, reflexivos etc., em geral frutos de fabulosas invenções, como a ficção.

No entanto, se para Borges a visão de todas as coisas, de todos os pontos no espaço, poderia trazer a lembrança definitiva, portanto a impossibilidade de esquecer ( como Funes ), a experiência no Aleph móvel (smartphone), diferentemente, é marcada pelo esquecimento como uma condição inerente. Nesse caso, não se esquece como consequência de termos visto todas as coisas e mistérios do mundo, mas porque precisamos substituir as imagens mais duradouras por por ofertas de produtos, principalmente opiniões.  Em ambas perspectivas, tanto a lembrança excessiva quanto o esquecimento profundo impossibilitariam a realização do conhecimento.

Mas além desse fluxo fugidio das redes virtuais, uma olhada no Mobile Aleph mostra-nos também o possível destino “perene” da internet, o que nos causa ao menos algum tremor, pois ao mesmo tempo em que somos forçados a esquecer e substituir  é como se olhássemos para essa fenda móvel, vidrados como Borges, e víssemos os arranjos de códigos, representando informações institucionais, mapas, museus, músicas, câmeras de monitoramento, bancos de dados, bibliotecas, circulação do dinheiro etc., o que tem se tornado a grande memória do mundo. Nesse sentido, o virtualidade é como Funes, a futura detentora da lembrança da humanidade.

Com isso, a internet traz duas características marcantes. A primeira é a exacerbação das formas de esquecimento, quando já não conseguimos atribuir qualquer valor às postagens senão o impulso do fluir (por exemplo nas redes virtuais). A segunda é a substituição da memória material, dos arquivos, por uma de capacidade de armazenamento infinitamente superior, acomodando, inclusive, próteses de memórias individuais (drive, dropbox).

Uma das consequências dessas duas características é o que chamam de “Efeito Google”, quer dizer, uma mudança na capacidade de retenção de informações no cérebro. As pessoas passaram a confiar no Google como o responsável por aguardar as respostas que necessitam. Um exemplo é o esquecimento dos números de telefone, dos endereços, dos caminhos, das senhas, receitas etc.

Voltemos aos contos.

[ Project Aleph of Emotions] Link https://www.fastcodesign.com/1671634/a-pocket-radar-for-tracking-world-happiness

O esquecimento para Borges tinha uma dimensão restauradora, necessária diante do excesso de informação. Não se tratava de esquecer tudo, como ocorria com aqueles que tomavam a água do rio Letes (rio do esquecimento, para o gregos), mas o suficiente para que o mundo permanecesse como mistério, sem blasé. Em nosso caso, em virtude dos intensos estímulos esquecimento/memória, como discutidos acima, a olhada na internet é um pouco mais complexa do que ver todos detalhes (como Funes) e os grandes movimentos (como Borges viu).

Só no Brasil ao menos 79 milhões de pessoas acessam a internet (nosso Aleph), e todas, de algum modo, estão trabalhando “voluntariamente” para construir a maior obra humana (estar na internet é estar produzindo conteúdo e informação). No mundo, esse número chega a 3,2 bilhões de pessoas. Apenas o Facebook tem cerca de 2 bilhões de usuários trabalhando gratuitamente, criando conteúdos digitais, compartilhando, pagando para que esses conteúdos cheguem ao maior número de membros da comunidade de interesse.

Borges apenas deu uma olhada no Aleph, sem que isso mudasse necessariamente sua vida. Quanto a nós, só olhar não é suficiente. Queremos é pular para dentro de cabeça. Assim, parece já não ser possível escolher a moderação entre o esquecer e o lembrar, como Borges o fez. Entretanto, com sorte, teremos a memória de Funes, andaremos com um Aleph no bolso, beberemos a água de rio Letes e ainda assim leremos mais e mais Jorge Luis Borges.

 

O Aleph – http://bit.ly/2dZxGct

Funes, o memorioso – http://bit.ly/1eBnp6T